
Não existe frase que me incomode mais que “eu acho”.
Prefiro variações como eu penso, eu intuo, eu imagino. São mais honestas e mais humanas, pois dá aos interlocutores a possibilidade do erro. E também incomoda o fruto direto desse universo de achismo: aqueles indivíduos que têm opinião para tudo. Cada um pensa o que quer, sabe como pode e entende como convém, mas o que se tem geralmente são clichês estúpidos, que não constroem porra nenhuma, e ainda tentam imprimir uma verdade pessoal baseada numa visão unidimensional dos fatos. Como discípulo do caos, para mim não existe melhor resposta que a dúvida. E sempre busco expressões artísticas que ajudem a corromper meu sistema de crenças, e que ajude a ruir qualquer certeza em mim.
Nesse fim de semana, emprestei o filme Waking Life, do Richard Linklater, o mesmo cara que produziu o revolucionário O Homem Duplo. Despertar sempre foi um tema recorrente no imaginário humano, em especial nas buscas filosóficas desde o início dos tempos. E é isso que o filme traz numa rotoscópica avalanche de questionamentos.
Linklater traz uma sopa de referências vedantistas, budistas, existencialistas, situacionistas e nietzscheanas, por meio da estética lisérgica da rotoscopia. Tudo isso para nos presentear com a dúvida: será que a vida que vivemos não é apenas um sonho? E se for um sonho, como despertar dele? Muito além da metáfora da consciência e responsabilidade para com a vida, o filme bate com força em questões como alienação, consumismo e passividade, males modernos responsáveis por uma parte considerável da atual miséria humana.

O que mais gostei foi a despretensão de ser mais um manifesto, por conta da narrativa caótica e experimental, além de dar voz a pessoas que têm essa mesma busca: o filósofo Louis Mackey, o radialista e inimigo público Alex Jones, e o cineasta Caveh Zahedi. Algo bem diferente de (pseudo) documentários místicos disfarçados de científicos como Quem Somos Nós, uma indecente e enganosa obra financiada pela seita Ramtha.
Existem passagens altamente inspiradoras, e é difícil escolher uma preferida. Resolvi postar esta:
27′15”
“Nessa ponte,” adverte Lorca, “A vida não é um sonho. Cuidado e cuidado e cuidado”. Tantos crêem que porque o “então” ocorreu, o “agora” não está ocorrendo. Eu não comentei? O “uau” contínuo que está se dando nesse mesmo instante. Somos todos co-autores desta exuberância dançante na qual até as nossas incapacidades se divertem. Nós somos os autores de nós mesmos, criando um romance de Dostoiévski, estrelando palhaços. Isso em que estamos envolvidos, que chamamos de mundo, é uma oportunidade de demonstrar como a alienação pode ser fascinante. A vida é uma questão de um milagre formado de momentos perplexos por estarem na presença uns dos outros. O mundo é uma prova pra testar se podemos nos elevar as experiências diretas. A visão é um teste para saber se podemos ver além dela. A matéria é um teste para nossa curiosidade. A dúvida é uma prova para a nossa vitalidade.
Thomas Mann escreveu que preferiria participar da vida que escrever. Giacometti foi atropelado por um carro, certa vez. Ele lembra-se de ter caído em um desmaio lúcido, um prazer repentino, ao perceber que finalmente algo estava lhe acontecendo. Assume-se que não se pode compreender a vida e viver ao mesmo tempo. Não concordo inteiramente. Ou seja, não exatamente discordo. Eu diria que a vida compreendida é a vida vivida. Mas os paradoxos me perturbam. Posso aprender a amar e fazer amor com os paradoxos que me perturbam. E em noites românticas do eu, saio pra dançar salsa com a minha confusão. Antes de sair flutuando não se esqueça, ou seja, lembre-se. Por que lembrar é muito mais uma atividade psicótica do que esquecer… Lorca no mesmo poema disse que o lagarto morderá os que não sonham. E, quando se percebe, que se é um personagem sonhado no sonho de outra pessoa, isso é consciência de si.
Se for verdade que a vida é mais bacana quando dividimos as coisas boas, eu tenho que agradecer à pessoa que colocou o filme inteiro no Google Video:
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