Falar sobre os Smiths é algo muito complicado. Explico: pode-se entrar num terreno maniqueísta, uma espécie de batalha de opostos. Argumentos não faltam, e eles vão desde a influência da banda na música pop contemporânea, até a percepção que eles foram mais seminais que os Beatles na cultura popular britânica (?!). Mas a banda é assim mesmo, polarizante e polarizadora. Ou você os ama, ou você os odeia. Não há neutralidade quando o assunto é a parceria entre Morrissey e Johnny Marr. Eu pelo menos não conheço alguém que ache Smiths mó legal. Até a ex-ministra Tatcher pronunciou-se a respeito de Morrissey, chamando-o de “bigmouth”. Isso tudo, polarização e polêmica, provam que a banda foi no mínimo relevante. Smiths, e conseqüentemente seu eterno vocalista  Morrissey, são uma pequena seita desorganizada, mas com dogmas suficientemente fortes para arrebatar seus seguidores.

Meu primeiro contato com os Smiths foi à segunda metade da década de 80, em uma pequena cidade mineira perdida no meio do nada, mas próxima a Brasília. Um namorado da irmã de uma amiga foi quem trouxe um single de 7 polegadas, de uma “banda muito legal com um vocalista meio gay”, comprado em Londres, em uma viagem feita pelo irmão, que trabalhava no Itamaraty. O single em questão era How Soon is Now, a música que, na época de seu lançamento, havia levado dois jovens ingleses ao suicídio. Foi a revista Bizz quem disse (e no final era verdade mesmo). Naquela época, o fluxo da informação era assim, algo torto e longo, e extremamente raro. Existiam duas opções: ou você consumia passivamente o que a Globo e a Bandeirantes passavam, ou se deixava levar pelo clima de mudança democrática que o país vivia. As revistas Bizz e a Som 3 raramente davam pra todo mundo. E era por meio delas que sabíamos que algo estava acontecendo.

“Nós” eram 20 pessoas que travavam verdadeiras guerras para ter acesso ao que rolava no mundo. O jornaleiro, o Bernardinho, ficava numa saia justa absurda, e se desdobrava para alimentar a gente das coisas que nos faziam acreditar que uma vida melhor, mais livre e mais inteligente era possível. E era por meio da música que entendíamos isso. MTV era uma espécie de utopia, de que ouvíamos falar, mas que era distante demais da gente. Mas éramos generosos uns com os outros. Gravávamos mixtapes caprichados, e assim compartilhávamos e nutríamos o sonho comum. Smiths, claro, estava em todas as fitas Basf, TDK e Pioneer que consumíamos enlouquecidamente.

Existiam também Siouxsie, Echo, Cure, U2, Talking Heads, R.E.M, além das raivosas bandas nacionais de garotos da classe média entediada de Brasília. Mas, para alguns de nós, foram os Smiths que abriram os olhos para o mundo. Uma lupa para um futuro adulto sombrio. Morrissey era o sujeito que cometia aquelas letras, cheias de autocomiseração e ironia sofisticada. Para alguns de nós, foi ele quem ensinou o valor do cinismo e alertou que somos todos desesperadamente sozinhos. Apenas muitos anos depois foi que dei valor a Johnny Marr. Como ficar ileso a palavras pesadas ditas suavemente* por meio de arpejos e dedilhados delicados, docemente melódicos? Smiths eram a harmonização perfeita entre luz e sombra, tristeza lírica e musicalidade solar.

Entre 1986 e 1987, quase todos os discos dos Smiths já tinham sido lançados no Brasil. Foi uma festa conhecer os B-sides por meio de Louder than Bombs e Hatful of Hollow, ouvir a genialidade de The Queen is Dead, e descobrir as preciosidades de Meat is Murder. Era um evento comprar um LP dos Smiths. Aquelas letras eram pequenas verdades relativas, vindas de alguém de Manchester que, misteriosamente, sabia sobre a desgraça de ser adolescente, solitário, tímido e idealista. Não havia alento nem proposta de solução. Tudo o que Morrissey fazia era mostrar de volta que as feridas de todos eram comuns. Foi ele quem me fez entender a intimidade nefasta entre Eros e Tanatos, e também a repressão cruel imposta pela maioria.

Daí os Smiths acabaram. Morrissey seguiu em carreira solo que acompanho com entusiasmo, mas sem surpresas. Johnny Marr não está mais lá, ao lado, tornando a melancolia do bardo de Manchester mais palatável. Dezenas de coletâneas foram lançadas, mas demorou 21 anos para os dois chegarem num acordo quanto a esta, The Sound of The Smiths. Com direção de arte e título criados por Morrissey, coube a Marr supervisionar a limpeza das faixas, tirando erros e excessos de mixagens e masterizações equivocadas feitas ao longo dos anos. Está tudo lá, só que mais limpo, mais coerente, mais audível.

21 anos depois, além da limpeza, algo ficou mais claro. Até parece que algo de valor se perdeu, mas, num olhar mais lúcido, o que entendo é que toda aquela tristeza é ridícula em faixas etárias depois dos 18 anos. Nada se perde afinal, pois a maturidade expande nossa visão sobre as coisas, e nos dá novas possibilidades de olhares.

Se eu fosse dar um conselho eu diria: Cuidado com o Morrissey! Ele sempre foi uma grande tela em branco chamando as pessoas para depositarem ali suas fantasias. Antes de se afundar numa crise existencial onde as esperanças estão mortas e a vida aparentemente é um fardo, é preciso levar em consideração a herança do Wilde e a ironia que permeia tudo que ele escreve. Morrissey é amado por muitos, faz centenas de shows por ano, é um cara muito rico, mora numa casa incrível, e em seus shows costuma vestir Gucci, Helmut Lang e Dolce & Gabbana.

A tristeza só é bom negócio para alguns poucos, e não creio que eu esteja entre esses escolhidos. Hoje, o melhor talvez seja se juntar ao Morrissey para rir de tudo o que passou.

*trecho de What Difference Does It Make


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THOMAS added these pithy words on Jul 22 10 at 7:50 am

Tudo o que Morrissey fazia era mostrar de volta que as feridas de todos eram comuns. [2]

Incrível, Keid.

Congrats!

Thiago added these pithy words on Nov 30 08 at 5:59 pm

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