Movimento cultural pessoal, mas não intransferível

11.08.08 | 5 Comments | Filed Under Outsight

Se eu tivesse um mínimo de talento para a programação, eu tenho certeza que seria um hacker. Não saberia dizer se eu me decidiria ser um white ou grey hat. A questão é que, se eu tivesse esse talento, com certeza, eu criaria um sub-movimento dentro da Z.A.T. de Hakim Bey.

Eu chamaria esse movimento cultural de SSP2P, ou melhor, Shift Seedind P2P, e aconteceria apenas em devices digitais - qualquer hardware que as pessoas tivessem em casa, no trabalho e em mãos. Minha proposta seria a disseminação de elementos artísticos que, historicamente, tivessem inspirado mudanças de comportamento e paradigmas nas pessoas. Um lembrete das raízes de mudanças que tivemos em nossa história, mas que a nossa condição situacionista apagou de nossas memórias. Aliás, já que todo esse aparato de hardwares à nossa disposição funciona como próteses de nossa memória, nada mais justo que inundá-los com SSP2P.

Haikais ilustrados distribuídos aleatoriamente por Bluetooth. Invasão a PCs: substituição de fundos de tela, ícones e atalhos com obras de street art mais de raíz; placement em HDs de cópias de livros como Viagem ao Fim da Noite, Além da Civilização, Sursis, O Terceiro Sexo, Alexis, Breviário da Decomposição e Bom Dia, Angústia. E também um saudável resgate da história de repressão de nossa América Latina, por meio de obras de artistas como Violeta Parra e Gonzalo Díaz.

Penso também em hotsites que aprofundassem um sentimento de caos divertido, por meio de uma temática anti-memes, mas que fossem sempre colaborativos. Penso em praticar o Shift Seeding dentro do Orkut, criando ferramentas caóticas na plataforma Open Social, que desestruturassem a comunidade, e dessem ao usuário novas perspectivas sobre o que fazer ali dentro. Não há nada mais perverso que essa gente que faz o jogo do gentil em busca de Ibope pessoal.

Sonho com uma combinação de micro-ações, descentralizadas e contínuas, que nos oferecessem algum riso, alguma inspiração e algum alento nas inóspitas ruas de São Paulo, na tristeza que são nossos ambientes de trabalho, na mentira que contamos a nós mesmos todos os dias e que convenientemente chamamos de vida real.

Cioran uma vez disse: Só tem convicções aquele que não aprofundou nada. Então, o que há além da superfície, gente?

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