Vida é escolha, não lei. Isso quer dizer que você escolhe estar vivo, apesar de todas as vicissitudes que ser humano e vivente implica. Você, e só você, vai se foder, vai ficar alegre, vai pagar contas, vai sofrer decepções, vai sonhar e realizar. Você. Sozinho. Saiba que você mora no Brasil, e vai poder contar com muito pouca ajuda. Nascer nessa terra desimportante, reativa e esquisita foi involuntário - você pouco podia fazer para evitar isso. Agora, o que você faz com a sua existência, desde que não atrapalhe a dos outros, é questão pessoal e intransferível.
Viver é uma espécie de pacto que fazemos com o acaso. Não é lei, não é obrigação. Simplesmente escolhemos existir um dia após o outro. Não temos bônus algum com isso - pelo menos não que o Estado se disponha a oferecer. Uma espécie de reconhecimento em favores, dinheiro ou sexo que simbolize “obrigado por ser brasileiro”. Você tem? Eu não, e não conheço alma’lguma que tenha. A gente vive pelo simples amor à vida. E esse amor vem com o tempo e a experiência.
Escrevo isso pois simplesmente não entendo o ponto dessa campanha do Ministério das Cidades, Viver essa é a lei. Oi!? Milhões de pessoas morreram em estradas desde que o automóvel entrou no Brasil. Uma Lei Seca, que parece descender do AI-5, simplesmente quer que as pessoas mudem maus hábitos instantaneamente. Nem Pavlov conseguiria isso.
A questão não é a bebida alcóolica, o carro ou a falta de preparo para a direção. O que é estranho e não termos uma triangulação dessas três equações. Ninguém se perguntou qual o papel da bebida na vida dos que bebem “socialmente”? Ninguém se perguntou o valor simbólico do carro na vida social dos bebem “socialmente”? Será que a agência que trabalhou com isso não entende o valor do carro e da bebida no contexto social da vida da população jovem brasileira? Ninguém percebeu que recondicionar alguém, fazer as pessoas a agirem de maneira diferente em uma sociedade hipermoderna, implica em oferecer outros instrumentos e motivos que ajudem as pessoas a substituírem crenças e hábitos? Não é só tirar, é educar e conscientizar em um trabalho de base a longo prazo. É colocar as coisas em perspectiva, é pensar em contexto - palavrinha mágica, que num país como o nosso tornou-se alienígena.
Em tempo: o novo comercial da Brahma é exatamente o oposto de tudo o que Viver, essa é a lei quer mudar. Acho que seria bem mais útil se Estado e cervejarias parassem de anular suas forças. É o mau hábito que sempre vai vencer nesse caso: Ambev tem muito mais dinheiro para vendê-lo.
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