*Este post é colaborativo e faz parte de um projeto em andamento, sem previsão para ser concluído.
2005 e 2006 foram os piores anos para quem trabalha com serviços de comunicação. Foi nesse período que uma nova safra de sabichões e neo-gurus do marketing estuprou o nosso sofrido inconsciente coletivo com um vocabulário bem peculiar. De repente fomos invadidos por anglicismos, siglas alienígenas e termos estranhos como web 2.0, consumer (ou user) generated content, Google, buzz marketing, colaboração, inovação, wikinomics, engage, connect, agregadores, blogs, Google, disruption, trends, Google, cool hunting, Google, youniverse, empowerment, Joelma e mais algumas dezenas de outros.
Começou então uma série de discussões proféticas sobre o fim de um monte de coisas: do marketing, das corporações, das mídias, das relações, do mundo e da paciência de alguns que só queriam um tempinho para entender o que estava acontecendo. Foi uma euforia digna de 1999, pré-bolha. Uma verdadeira folie à plusieurs que tornou-se partagée¹. E ainda persiste.
Eis que eu, Yentl e Amaral, numa tarde feroz de trabalho, tivemos a notícia que Chris Anderson estava em terras tupiniquins. Em Porto Alegre, mais especificamente como palestrante do IV Fórum de Internet Corporativa. Resolvemos então nos inspirar nesse sujeito que, assim como nosso Severino Cavalcanti (saudades!), legitimou todo um baixo clero sedento por vez, voz e poder.
Graças ao seu status de Don Corleone da cultura contemporânea, por ser O cara da Wired, Chris Anderson ajudou a foder um pouco mais minha vida com teorias cujos nomes são sacadinhas fun: lembra de Long Tail? E Snack Culture? E Free Economics (mas não era Freakonomics??? )?
Arrebatados, o triunvirato caótico conseguiu fugir um pouquinho dos afazeres, e vislumbrou uma libertadora plataforma conceitual que incentiva a todos – eu, você, todo mundo, com ou sem blog – na criação de suas próprias teorias com sacadinhas fun. Essa plataforma chama-se A Calda Longa. Sim, caLda.
Primeiro precisamos esclarecer o que sustenta isso: lembrei de um livro esquecido na estante de autoria da Marilena Chauí, e que paguei uma nota na época da faculdade - Convite à Filosofia. Nele, temos menção a uma passagem da primeira cartilha comunista evah, escrita por Rousseau, o ensaio Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. (Um título assim já basta para credenciar nossa teoria):
o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo.
Claquete. Cena 2: nos iluminamos com uma enxurrada de perguntas - Mas e o que foi feito do meu? Cadê? Não falam de empowerment do consumidor? Da ascensão do poder da opinião individual? Do poder da coletividade?²
Calda Longa é isso, a apropriação pelos universos de uns sobre assuntos que ninguém ainda fala. É interpretar a realidade conhecida e desconhecida de acordo com seu repertório e devolver pílulas de observação com raciocínio aparentemente estruturado, independente da realidade dos fatos. O que importa saber antes de aplicar a Calda Longa é que toda realidade é efeito.
Pensamos até em um manifesto, mas ainda está em brainstorm. Abaixo alguns trechos que começam a dar forma ao nosso raciocínio:
A Calda é Longa, pois a vida é líquida e o mundo fluido.
É observar, qualificar e categorizar o mundo a partir da perspectiva
de uma calda, que escorre de forma descoordenada, diferente da cauda,
que vai apenas para cima, para baixo e para os lados, sem os eixos X e
Y, livre da Rosa dos Ventos.Toda Calda Longa é mais densa que a líquida: ela seca, não evapora,
ela se autoforma, reforma, deforma, informa, enforma…A calda traz sabor, enfeite e beleza à cauda. A Calda transmuta-se e
assume novas formas.A Calda Longa é a cauda longa da opinião, da colaboração, da interatividade.
É relativamente fácil criar sua própria calda longa. É só aplicá-la a territórios abstratos, voláteis, subjetivos, qualitativos, de difícil verificação e classificação como comportamento, moda, música, design, tecnologia, web, propaganda, Flogão ou Google.
A gente desconfia que algum name-dropping será necessário para mostrar que estamos no fluxo do zeitgeist³. Creio que é só pegar a lista de livros mais comentados pelo pessoal das agências de propaganda. Gringas, de preferência. Todos eles têm blogs. O mais importante é excluir todo o contexto, toda e qualquer visão macro, e, o essencial, todo o resto do capitalismo que não seja correlato aos territórios citados.
Isso não é e nem será uma realização imediata, pois não temos um Chris Anderson de tempo livre. Com muita fé em Deus, se tudo der certo, o triunvirato vai criar algumas caldas longas bem argumentativas para incentivar e inspirar a todos fazerem o mesmo.
Depois é só criar um zine digital em pdf, que vamos distribuir em alguma ferramenta gratuita tipo blogspot.
Em seguida, depois de lobby e networking, vamos lançar um livro por uma editora de literatura de negócios para dar mais credibilidade.
E, por fim, ficaremos ricos e nos mudaremos para o Suriname, aumentando nossa fortuna cobrando US$ 150,000/dia por meio de palestras para pessoas suficientemente simples que acreditem na gente.
O único problema é como fazer com que acadêmicos do nível de um Grant McCracken e Anita Elberse parem de insistir em nos desmascarar. Pensando bem, não é fácil ser o Chris.
(¹)(³): Não encontrei tradução para esses termos na nossa querida língua reformada. E eu acho chique.
(²): Não faz muito sentido, eu sei. Nós não vamos resolver o paradoxo que esse pessoal hypado rotulou como opinião individual – o meu, de mim, por mim –, e poder coletivo – o nosso, por nós, para nós. E se o nós diluir o eu? O contrário é possível? O nós contém a mim, mas eu contenho o nós até onde? Enfim, isso é só um detalhe, mas qualquer ajuda é bem-vinda, pois não somos sociológos, antropólogos ou filósofos.
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COMMENTS / 9 COMMENTS
Melhores e Piores (semana da quebradeira na bolsa) | Bitpapo com Sec2o | Sadismos e pitacos sobre a vida digital. added these pithy words on Oct 11 08 at 10:13 am[...] - imagem da semana - vídeo da semana - site da semana - design da semana - idéia idiota da semana - soundtrack da [...]
Sec2o added these pithy words on Oct 09 08 at 9:25 amFrutas vermelhas, por favor. Débito. Obrigado.
Guilherme Land added these pithy words on Oct 09 08 at 9:40 amé isso aí, a calda longa é volátil e escala! É abstrata e livre de modelos pré-concebidos :P
Só precisam de uns exemplos que envolvam o Google e tá no ponto.
Thiago added these pithy words on Oct 09 08 at 11:23 amGreetings from Suriname
Yentl added these pithy words on Oct 09 08 at 12:29 pmvida longa à calda
porque só assim a cauda sobreviverá.e keid, quanto ao sabor… a gente escolhe ou a gente cria?
amaral added these pithy words on Oct 09 08 at 1:34 pmapenas pessoas com caráter para perceber o grau de complexidade e fluidez da calda.
Keid added these pithy words on Oct 09 08 at 10:45 pmQuanto ao sabor, gente, isso é uma escolha altamente pessoal e intransferível. Não falamos de universos de uns? :P
Guilherme, quanto ao Google, estamos tentando exemplificar, mas sem transformar o coitado em bode expiatório ;-)
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